Devolvi o carro no dia seguinte, sexta de carnaval, então tivemos que usar ônibus e táxi. Nosso hotel era em Boa Viagem, e o translado pro Recife Antigo ou pra Olinda, que não seria nada de muito longínquo em condições normais, tornou-se traumático quando carnaval misturou-se com chuva e alagamentos.
Passamos o sábado em Olinda (chove-para-chove-para), e perdemos umas quatro ou cinco horas entre a decisão de ir embora e o chegar no hotel. QUATRO OU CINCO HORAS. Dezessete quilômetros. Absurdo o despreparo da cidade pro evento. Alô governo (1 de 2): não espere que ninguém dirija bêbado sem antes providenciar transporte público minimamente decente, frequente, civilizado.
No domingo fomos pro Rio de Janeiro, com escala em Salvador. Na hora da conexão, vejo a ÂNGELA, nossa amiga gaúcha que também mora em Sydney, na frente do portão de embarque. Estava NO MESMO VOO. Bizarro. Depois nos contou da mudança de planos na última hora pra não passar o carnaval todo em Salvador, e que tinha comprado ingresso pra Sapucaí… NO MESMO SETOR QUE A GENTE. Ângela estava no fim de uma grande viagem de mais de seis meses pelo mundo.
Fomos recepcionados no Rio pelo adorável casal Gustavo e Beth, amigos dos meus pais. Mesmo no meio de 2011, eu não conseguia encontrar pousada no Rio que não fosse por pacote de carnaval completo, então eles nos salvaram a pele ao oferecer pouso. E ainda foram muito hospitaleiros. O Flávio era o único dos três filhos que estava lá, também muito simpático.
O apartamento deles, muito bacana, ficava num condomínio na Barra da Tijuca. Demorava um tanto chegar nos bairros mais turísticos, e tempo é algo que nos faltava. Mas deu pra mostrar pra Gemma Leblon, Ipanema, o Arpoador e a pontinha de Copacabana, antes de almoçarmos, na segunda de carnaval, com a Mirella e a Carol, na Gávea. Depois fomos pro Aterro do Flamengo, onde tocava o famoso bloco Sargento Pimenta, que faz versões carnavalescas de músicas dos Beatles. Entre as milhaaares de pessoas aglomeradas ali, quem salta DO NADA pra cima da Gemma? ÂNGELA. Tá doido.
Ficamos pouco nesse bloco porque queríamos voltar pra descansar um pouco antes de ir pro Sambódromo. Mas a volta de bus foi tão complicada que chegamos até atrasados – isto é, não apenas faltou tempo pra descansar, mas tivemos até que correr pra tomar um banho.
Depois, outra jornada pra chegar lá. O Gustavo dirigiu até a lagoa, deixamos o carro lá, e caminhamos até a estação de trem. Chegamos várias estações depois, e ainda demos uma mancada, perdemos a hora de trocar de linha e tivemos que voltar. Saindo da estação, maaais uma pernada até chegar na entrada correta pro nosso setor. Subimos as escadas e o previsível se cumpriu: os assentos impressos no ingresso de nada valiam, o setor estava COMPLETAMENTE SUPERLOTADO, e não tínhamos aonde EXISTIR ali. Gustavo e Beth não se acanharam e se enfiaram lá, ignorando os protestos de quem já estava lá. Eu não consegui e me expulsei para o vão que deveria ser uma escadaria de saída, limitado por duas cordas. Tava bem irritado a princípio com essa desorganização toda, mas quando finalmente me aquietei, tudo ficou ok, mesmo que dois segundos depois, todo aquele vão “de saída” estivesse tão abarrotado quanto todo o resto das arquibancadas.
Mas que lindo espetáculo é, de fato, a Sapucaí. Vale muito a pena, realmente uma daquelas coisas pra lista de “tem que fazer uma vez”. Apesar do mencionado atrolho, o setor 10 é bem localizado, fica perto do recuo da bateria, aquela valeta mais perto do fim onde os percussionistas estacionam pro resto da escola passar, pra depois serem os últimos a sair da avenida.
Gostei bastante da União da Ilha, que a grosso modo falou de Londres/Inglaterra, e da Unidos da Tijuca, que acabou ganhando. Foi legal isso, pois se a campeã fosse uma das 6 que desfilaram na noite anterior, a gente ia ficar com aquela sensação de ter perdido algo massa. Todos achamos o título muito merecido. Aquele boneco-mola foi um toque sensacional, e muito legais também os homens de barro, o carro que era um aeroporto com “a realeza” desembarcando, entre outros.
Voltar pra casa foi aquela via crucis de novo, e o sol estava alto quando chegamos no condomínio. Cataploft. Na terça de carnaval não houve força pra muita coisa, exceto um bloco mais comedido ali na praia da Barra mesmo. Até voltar disso acabou sendo uma pernada meio homérica. As distâncias enganam no Rio, as quadras são enormes, uma vibe meio Los Angeles quando se passa de São Conrado… Beijing também era assim. Ah, são só seis quadras = duas horas de caminhada.
E dê-lhe cheiro de mijo na cidade toda. Especialmente na beira da praia. Alô governo (2 de 2): não espere que ninguém faça xixi na rua sem antes providenciar banheiros públicos minimamente decentes, bastantes, civilizados. Uma hora na praia a Gemma teve que caminhar um monte até um posto, daqueles numerados pela orla, e pagar uns dois reais pra entrar numa fila e usar uma latrina toda cagada. Indigno.
A quarta-feira de cinzas foi nosso dia de turismo, mas não deu pra fazer muita coisa. Começamos pelo Cristo, almoçamos no topo da Santa Teresa, descemos as lombas e seguimos até a Lapa. Vimos aquela escadaria dos mosaicos (as seen in Snoop Dogg’s video), no pé da qual atravessamos um bloco só de maconheiros. Voltamos pros arcos da Lapa pra tomar umas, e mais tarde a Carol nos encontrou de novo, dessa vez com seu namorado, que é São Leopoldo e trabalha na Vice brasileira. Parceria. Por volta das onze fomos pra casa, depois de constatar que cobravam 25 mangos pela entrada no Carioca da Gema – um trocadilho que portanto a Gemma só saciou na faixada.
Quinta seria o dia de fazer as compras que não fizemos durante toda a viagem pra não ficar carregando, e por ter limite de bagagem mais murrinha nos voos domésticos. Só que deu errado – fomos no Barra Shopping, onde não tem nada do tipo LEMBRANCINHA, e onde as coisas que a Gemma queria ver tipo bolsa ou roupa eram muito mais caras. Fail. Passamos no Carrefour pra comprar guloseimas e foi isso. Uma última janta com os Sampaio, um jogo do Fluminense na tv (despachando o Botafogo nos penais), e então o casal nos levou até o aeroporto. Santos!
Encerrou-se então o passeio, num Galeão vazio e com tudo fechado à meia-noite. Nosso voo saiu às 3 da manhã rumo a Dubai, e eu já tentei me regular com a hora de Sydney, dormindo apenas quando Sydney dormiria e tal. Em Dubai, uma parada rápida pra comprar álcool mais barato que no Rio ou em Sydney, verdadeiras barganhas. Depois um segundo trecho de 14 horas, no qual permaneci acordado, pois seria dia em Sydney. Vi OITO filmes durante essa viagem.
EPÍLOGO
Os pais da Gemma nos receberam no aeroporto e nos levaram pro nosso apartamento. Estava tudo em ordem. Dormimos depois da uma da manhã, e eu acordei às quatro, acho. Vi o sol nascer bonito. Enquanto a Gemma foi pra casa dos pais, eu encontrei o Titanic pro almoço, cansado pra caralho. Fui pra casa, tentei resistir, mas me entreguei à cama às sete da tarde. Pra minha surpresa, dormi até as quase sete da manhã seguinte, e desde então já fiquei zero bala, sem problemas de jet lag. Ou minha estratégia de voo deu muito certo por vias tortas, ou não sei o que houve.
A primeira semana foi muito lerda no trabalho pra mim, e na verdade ainda tá assim. Tô meio de saco cheio e talvez mude de emprego um pouco antes do planejado. Talvez não. A Gemma também não se reintegrou tão fácil, com compras de super tão mais caras, tempo ruim a semana toda, a volta às aula iminente e as melhores amigas dela estando no exterior. Mas ontem fez um solzinho e tudo já ficou bem melhor.
Ela gostou tanto que sugere da gente passar um ano no Brasil, um dia. Nada acontece antes do fim de 2012 e do curso dela, mas tem isso aí na manga. Por enquanto o negócio é procurar um novo rumo profissional, tanto eu quanto ela. Até porque se a gente se encontrar nesse sentido, vai ser mais improvável largar tudo.